A CRIAÇÃO DE SILENT HILL

A CRIAÇÃO DE SILENT HILL

Entre na neblina e descubra como a série da Colina Silenciosa foi criada!

Neblinas densas, cultos satânicos e uma cidade muito estranha: Silent Hill é um jogo de Playstation lançado em 1999 pela Konami! Um jogo de Survival Horror, o famoso terror de sobrevivência do qual falamos lá no Conta & Joga de Resident Evil, e um dos mais aterrorizantes!

Silent Hill conta a história de Harry Mason e filha Cheryl, viajando juntos de carro pelas estradas escuras do estado de Maine, nos Estados Unidos. Quando estão passando pela cidade de Silent Hill, ele vê uma mulher na estrada, desvia e bate o carro. Quando acorda, Cheryl sumiu, então ele precisa procurar por ela nessa neblina bisonha, mas é claro que não vai ser uma tarefa simples, já que coisas nada legais começam a acontecer com ele, como cultistas de uma seita satânica, fantasmas e monstros com cabeça de pirâmide.

Harry Mason chegando desastrosamente a Silent Hill.

O jogo foi criado pelo Team Silent, um time de desenvolvedores do estudo de Tóquio, da produtora de jogos Konami. Começou a ser desenvolvido em 1996, e os caras queriam lançar um jogo que bombasse nos Estados Unidos, esse era o foco, então decidiram construir a história em torno de uma cidade americana. Os EUA são cheios dessas cidades caipiras isoladas da cidade grande, em que podia dar uma merda dessas e ninguém nunca ficar sabendo, vide Raccoon City…

Silent Hill, 1999, Playstation.

O interessante é que essa era uma equipe formada por profissionais desiludidos, que queriam sair da Konami, já que não tinham tido muito sucesso até ali, então a empresa selecionou a equipe para um jogo do qual não esperava muito e de menor investimento, mas isso deu aos produtores mais liberdade. A ideia seria usar o máximo do baixo orçamento para pegar na emoção do jogador, já que não dava pra fazer um jogo com gráficos maravilhosos e mapas imensos. Pensaram, assim, no conceito do “medo do desconhecido”.

O roteiro foi escrito por Keiichiro Toyama de uma forma meio confusa (até para ele mesmo), com o objetivo de deixar a trama no escuro e confundir também o jogador, aumentando ainda mais do terror. Afinal, você teme o que não entende. Então, se você acha que o roteiro de Silent Hill é maravilhoso e muito complexo, porque ele deixa o jogador imaginar o que aconteceu, te enganaram também. Isso foi feito só pela experiência de terror.

O “medo do desconhecido”, técnica de terror usada em Silent Hill.

Ele pegou referência em relatos de Alienígenas e em outras teorias de conspiração, e também nos filmes de David Lynch, um diretor surrealista, que tinha feito Tween Peaks, uma série de suspense que tem bastante a ver com Silent Hill, já que a própria cidade era uma personagem nas histórias.

Os personagens do jogo foram criados por Takayoshi Sato, e a história dele também é interessante. Sato era praticamente um estagiário na Konami, então os superiores botavam ele pra criar Fonts, separar arquivos, trabalhos monótonos. Mas Sato, ao contrário da maioria de seus colegas, sabia criar modelos em 3D, então, no horário livre, ele também criava modelos, demonstrações e ensinava o pessoal mais velhos sobre modelagem, mas continuava recebendo pouco trabalho que realmente importava.

Takayoshi Sato, o subestimado e principal artista de Silent Hill.

Até que, um dia, Sato deu um basta: subiu os andares da chefia no prédio da Konami, levando um curta-metragem em 3d que ele tinha criado, e ameaçou processar os caras que estavam usando as técnicas dele na empresa (os que ele mesmo tinha ensinado) se não dessem trabalho de verdade pra ele. E deu certo: ele ficou encarregado do design de personagens do jogo todo. Ele fez todas as cutscenes sozinho, e usava 150 computadores dos companheiros de trabalho para renderizar os vídeos, depois do horário de expediente, e conseguir entregar tudo!

Além de todo o 3D, Sato até ajustou umas coisas do roteiro, o cara chegou pra salvar, já que achava que o jogo deveria ser uma obra prima com uma história engajadora, como uma boa literatura. Baseou o design de monstros e os puzzles em livros como o Mundo Perdido, de Arthur Conan Doyle, e Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll.

As inspirações de Silent Hill: Alice no País das Maravilhas e Mundo Perdido.

Os nomes dos personagens foram tirados de pessoas reais e famosas, como a atriz Sheryl Lee, inspiração para “Cheryl”, a também atriz Judy Garland, para Lisa Garland, entre outros. Os nomes das ruas da cidade eram homenagens a autores famosos de terror, como Richard Bachman, um dos nomes artísticos de Stephen King, grande escritor de livros de suspense e terror.

Bachman Avenue, homenagem a Richard Bachman, pseudônimo de Stephen King.

Mas a produção ainda contava com as limitações de orçamento e do processamento do Playstation. Então, como contar a história que queriam, com o 3D que queriam, e uma cidade inteira para explorar?

Para usar menos cores e gastar menos processamento, colocaram texturas com muito noise, ruído visual, borradas, riscadas, nesse estilo sujo que deixa tudo com uma aparência de velho, bem menos colorido.

As texturas com muito ruído, riscos e sujeira dos gráficos de Silent Hill.

Como usavam a tecnologia de real time rendering, em que o jogo renderizava em tempo real as coisas que apareciam na tela, e isso é muito pesado, já que o 3d era muito bem feito pelo Sato, eles precisavam de um milagre pra mostrar uma cidade inteira. Daí surgiu uma das ideias mais espertas dos videogames: Neblina! O Team Silent diz que tirou essa ideia de O Nevoeiro, de Stephen King, e que ela tinha esses dois propósitos: dar medo e ajudar os gráficos. Assim, o terror aumentava, já que você não via nada, e ajudava no processamento, já que as coisas só apareciam quando você chegava muito perto dela, então o jogo precisava renderizar menos imagens de cada vez, e funcionava melhor. Mais uma vez, um dos elementos mais marcantes de um jogo foi feito como uma gambiarra para ele funcionar melhor com o orçamento que tinha. Mais tarde criaram a explicação do que é a neblina na história do jogo (cinzas criadas pelo subconsciente de Alessa, personagem que surge mais para a frente na história), mas ela surgiu para solucionar problemas de produção e orçamento!

A neblina, ou Fog World, criada para facilitar a renderização do jogo.

Como os desenvolvedores também não tinham dinheiro para visitar locações, tirar foto de mansões, casas antigas, e muito menos viajar aos Estados Unidos só para isso, tiveram que se virar com os filmes americanos que assistiam. A escola que aparece no jogo é uma réplica perfeita do filme Um Tira no Jardim de Infância, de 1980, aquele com Arnold Schwarzenegger. Até os pôsteres das paredes do filme foram copiados para a textura do 3D do jogo.

A escola de “Tira no Jardim de Infância” foi uma inspiração para o jogo.

Uma outra inspiração pra cidade foi Centralia, uma cidade abandonada no estado da Pennsylvania, nos EUA, por causa de um incêndio de carvão em 1962. Apenas 7 residentes ficaram na cidade, e ela ganhou o título de “Cidade Fantasma”.

Centralia, a cidade fantasma de verdade que inspirou Silent Hill.

A trilha sonora, maravilhosa e assustadora, foi composta por Akira Yamaoka, que também era encarregado dos efeitos de som. Ele decidiu ir por uma temática industrial, para gerar efeitos sombrios – sirenes, metais batendo, rangendo. Quando ele apresentou o som pela primeira vez para a equipe, acharam que os efeitos eram bugs do jogo, mas na verdade era só a trilha sonora, e ele teve que explicar que aqueles barulhos eram propositais!

A jogabilidade também teve inspirações nos pioneiros de Survival Horror: Alone in the Dark e Resident Evil, que consolidaram essa técnica de câmeras paradas, fundo pré-renderizado, mas esse jogo tem muito mais influência na cultura pop: na literatura, filmes de suspense, e isso acabou fazendo ele ter um lore bem mais interessante que outros do gênero.

Câmera parada e fundos pré-renderizados, heranças de Resident Evil e Alone in the Dark.

Falamos das câmeras, mas é interessante perceber que ele varia entre câmeras fixas e uma câmera que fica balançando, ou é rotacionada, em lugares nada usuais, justamente para dar essa sensação de perder a direção, de confusão, e isso só agrega à imersão do jogo.

O jogo foi bem recebido e vendeu mais de 2 milhões de cópias. Foi comparado a Resident Evil e, como veio depois, muitas pessoas chamavam de “cópia”, até como uma resposta da Konami à Capcom. Mas a maioria dos críticos elogiou muito o jogo, dizendo que era um pesadelo simulado quase perfeito.

Comparando ainda com Resident Evil, os críticos elogiaram muito a atuação de voz desse jogo, já que nós lembramos da chacota que eram as atuações em RE (vídeo o episódio que fizemos no Conta & Joga). E em questões de Survival Horror, você acaba se sentindo bem menos seguro jogando esse jogo, já que você não é um policial das Forças Especiais treinado com um lançador de granadas, é só um pai com um cano de metal tentando achar sua filha!

Aonde você foi se enfiar, Harry Mason?

O jogo fez tanto sucesso que virou uma série toda de jogos, filmes, quadrinhos, aquilo que a cultura pop adora fazer: criar sagas infinitas! A família Mason não está presente em todos os jogos, mas sim a cidade é o personagem principal em todos eles.

Foram 8 jogos principais, 2 filmes, e Silent Hill se tornou uma das grandes franquias dos videogames. O principal filme, Terror em Silent Hill, de 2006, não é uma cópia exata do primeiro, mas tem várias referências. Conta sobre uma mãe que resolve levar sua filha à cidade que ela conta que vê em pesadelos. A filha, que tem síndrome de Asperger (popularmente conhecido como autismo), se chama Sharon, quase Cheryl, e tem a policial Cybil Bennet no filme também. A obra acaba sendo uma mistura mais aleatória de conceitos da série do que uma adaptação do primeiro.

Terror Em Silent Hill, o primeiro filme baseado na série de jogos.

E vamos encerrando por aqui nossa jornada pela criação da neblina mais famosa dos games! Conta para a gente: quanto de medo você já passou em Silent Hill? Qual seu jogo favorito da série? Você sabia que a neblina era um cheat dos produtores?

Nos vemos no próximo Conta & Joga! Até lá, e muito videogame para você!

Fontes: Wikipedia, Sportskeeda, WhatCulture, TheGamer

Episódio lançado em: 4 de junho de 2020.


Esse conteúdo é propriedade do canal Conta & Joga, criado por Mateus Foca e Danilo Fernandes.

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